Entrada livre
A artista Polina Kanis apresenta no PEDRA DURA quatro filmes que exploram rituais coletivos, mecanismos de poder e comportamentos sociais, revelando o absurdo e o desconforto que permeiam a realidade quotidiana.
CELEBRATION
Esta obra capta um momento em que a repressão, enraizada no quotidiano, se cristaliza durante um ritual de celebração. Vemos homens fardados a dançar indiferentemente uns com os outros. Não sabemos quem são, porque estão juntos nem o que acontecerá a seguir. Embora unidos na ação, é evidente que cada personagem permanece no seu espaço pessoal, profundamente alienada das restantes. É preciso tempo para perceber que o absurdo da cena constitui um desafio à própria visão. Mais do que um apelo à empatia que mantém uma distância segura, o filme apresenta ao público um diagnóstico. No entanto, a distância entre a cena e o público desaparece quando surge a suspeita de que esta imagem construída do mundo é, afinal, o pesadelo da realidade social. Nesta celebração convencional, os adereços brilhantes não são alegres e os sinais de atração não seduzem. O absurdo permanece como o significado intrínseco destas trocas ritualizadas. São o fruto carcomido da tradição.
Duração: 13 min
THE POOL
O vídeo expõe a realidade em toda a sua ambiguidade onírica. Pessoas entram numa piscina relativamente pouco profunda e desaparecem inexplicavelmente. The Pool apresenta a condição de um vácuo hermeticamente fechado, projetado e mergulhado na realidade pela suspeita que recai sobre as nossas experiências essenciais. O vídeo reflete um estado-limite, no qual a natureza absoluta da fronteira é acentuada pelo espaço fechado de um bunker selado, palco de um acontecimento impossível, parcialmente oculto pela superfície da água. Existe outra fronteira que separa aquilo que vemos daquilo que está a acontecer. O enquadramento do vídeo orienta a atenção, seguindo a lógica de um sonho indistinguível da realidade. É um vídeo de sentido hermético, espaço hermético e sujeito hermético, alienado de si próprio e da comunidade de sujeitos que são exatamente iguais a ele. A natureza integral e visual de um pesadelo cintila diante de nós. Nada acontece ali, para além da catástrofe invisível.
Duração: 9 min
FORMAL PORTRAIT
O projeto propõe reexaminar a cultura dos desfiles e das procissões de massas enquanto um dos mais poderosos instrumentos ideológicos. A eternidade das expectativas torna-se o motivo central: ouvimos o rugido do motor como símbolo de prontidão para a ação. O mastro está preparado, as figuras juntam-se obedientemente para formar uma bandeira — esta repetição interminável parece condenada a permanecer na eternidade, sem nunca se tornar um momento da História. O ritual de içar a bandeira parece destinado a demonstrar uma força vitoriosa, numa eternidade dramatizada e encenada, mas acaba apenas por revelar a impotência da ação em curso. A bandeira é içada num território fechado, invisível ao público. O seu içar cerimonial torna-se uma metáfora de uma vitória que nunca chegará.
Duração: 8 min
PURIFICATION
A obra é um registo em vídeo de uma performance na qual a artista reconstitui o ritual de lavagem dos pés. A imagem de uma pessoa a lavar os pés de outra está profundamente enraizada em diferentes tradições culturais e religiosas, carregando múltiplos significados e associações. Através da reprodução pessoal deste ritual, a artista procura repensar e purificar essa imagem. Eliminando os clichés mais evidentes, coloca o ritual num contexto estéril e esquemático de ação direta: sem cenário, com personagens de idades semelhantes, vestidas com roupas neutras idênticas. Uma edição discreta do vídeo e do som reforça a sensação minimalista de vazio. Como resultado, a imagem canónica é completamente desconstruída.
Duração: 20 min
Polina Kanis (São Petersburgo, 1985) é uma artista sediada nos Países Baixos, que trabalha nas áreas da instalação, da performance e do vídeo. A sua prática artística investiga estruturas de poder ocultas, a política dos afetos e a formação de ordens ideológicas na cultura. Mais recentemente, tem-se centrado no potencial transformador da imaginação em relação ao trabalho sexual, explorando a forma como a sexualidade é moldada por estruturas políticas e ideológicas. O seu trabalho foi apresentado em numerosas exposições e festivais de cinema, incluindo uma exposição individual na Haus der Kunst, em Munique (2017), e no programa paralelo da Manifesta 10. As suas obras integram coleções como a do FRAC Bretagne, da Fondazione In Between Art Film e da Kadist Foundation. Foi artista em residência na Rijksakademie van beeldende kunsten, em Amesterdão (2017–2018), e no ISCP, em Nova Iorque (2020).
CELEBRATION
2015. Vídeo. HD. 13’27”
Produtora
Yana Krylova
Direção de fotografia
Pavel Filkov
Elena Martynova
Direção de som
Anton Kuryshev
THE POOL
2015. Vídeo. HD. 09’41”
Produtora
Alya Lugovaya
Direção de fotografia
Margarita Karyuk
Operadora de câmara adicional
Elena Martynova
Figurinos
Anna Bashtovaya
FORMAL PORTRAIT
2014. Vídeo. HD. 8’31”
Produtora
Yana Krylova
Direção de fotografia
Pavel Filkov
Elena Martynova
Direção de som
Anton Kuryshev
PURIFICATION
2010. Vídeo em loop. HD. 20’00”
Direção de fotografia
Kirill Preobrazhensky
Dmitry Moskvichev
Dmitry Venkov
Direção de som
Anton Kuryshev