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Uma pausa de corpo inteiro

Voltar atrás sem repetir o momento.

É peculiar a ideia de ver o futuro. Talvez porque, para o vermos, tenhamos primeiro de aprender a olhar para tudo aquilo que deixámos para trás. Não como quem regressa, mas como quem reconhece um rasto e percebe que também ele continua a mover-se.

Talvez o conhecimento mais profundo sobre quem somos aconteça quando nos permitimos perder-nos o mais longe possível de nós, como quando nos abandonamos deitados na relva do parque da cidade, no areal da praia onde íamos ao domingo, nos lençóis de uma cama vazia ou na plateia de um teatro. Talvez encontrarmo-nos tenha de demorar, para dar espaço a reconhecermo-nos noutras bocas, noutras mãos e noutros pés.

Talvez tenhamos de nos deixar refletir mais entre nós. Permitir que os nossos corpos se tornem espelhados e ganhem a forma de muitos céus, espalhados pelas ruas, por escolas, casas, teatros, varandas, pátios e avenidas. E, de repente, somos um único céu enorme, fragmentado em milhares de espectros que dão lugar à passagem das nuvens e de um claro azul.

O céu é um dos lugares mais acessíveis e democráticos que nos podemos permitir contemplar. Está sobre todas as cabeças. Não exige bilhete, convite ou autorização. Basta que assim o desejemos.

O 5.º PEDRA DURA — Festival de Dança do Algarve abre espaço para que o tempo se revisite e nos traga a inquietude dos lugares, das coisas e das pessoas, criando tempestades de areia no interior do céu da boca. Durante duas semanas, encontramo-nos a toda a hora para saborearmos, em conjunto, aquilo a que chamamos instante — tal e qual um fio de algodão-doce que se desfaz assim que toca na língua.

Voltamos atrás sem repetir o momento.

Voltamos para perceber que aquilo que passou não desapareceu: atravessou-nos. Ficou preso aos músculos, às paredes, às ruas por onde passámos, às pessoas que encontrámos e àquelas que ainda não conhecemos. Talvez um festival seja também isto: uma forma de tornar visível o rasto que deixamos uns nos outros.

Tornamos possível a existência sem medo de olhar para trás e assegurar que já fomos tanto e que há ainda tanto para continuar a ser. Basta que assim o desejemos.
Há que substituir os passos largos por olhos abertos, como bocas que se alimentam de tudo aquilo que veem; há que trocar o silêncio pelo barulho ensurdecedor do bater do coração, como guia nas noites escuras; há que saber ficar e mergulhar numa pausa de corpo inteiro.
Porque talvez o futuro não esteja à nossa frente.

Talvez seja apenas um rasto que nos atravessa.

Daniel Matos
Codireção artística

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O CAMINHO DAS PEDRAS
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Creio que nunca foi nossa intenção criar um caminho de pedras.

Creio que nunca tivemos a presunção de ensinar ninguém a caminhar sobre as pedras que fomos colocando em cima da água ao longo destes cinco anos.

Uma das maiores lições que aprendemos com o nosso PEDRA DURA é que não se ensina ninguém a gostar de nada. Fomos, assim, instalando pedras sobre água, nem sempre na certeza de que estivessem seguras, mas com o desejo de que fosse possível andar um pouco mais em frente.

Desde o primeiro ano que olhamos para trás e vemos que não estamos sozinhos.

Desde o primeiro ano que olhamos em frente e compreendemos que a outra margem não existe. Não existe um lugar ideal onde chegar, não existe um sítio seguro onde construir casa, nem sequer cabana.

E, no fundo, é assim que queremos que seja.Que o horizonte seja longínquo, inalcançável, porque isso também significa que as possibilidades são infinitas.

A casa e a cabana constroem-se em cada pedra que vamos pisando – ela cresce e estende a sua superfície para albergar muita gente.

Seguimos na esperança de que o caminho seja maior que nós, que vá para além de nós.

E que lá atrás, já lá venha alguém com novas pedras para assentar no futuro.

Joana Flor Duarte
Codireção artística

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